Giovanna O. Silva
Trabalho e gestão de si – para além dos
 “recursos humanos”


Este texto busca analisar como a Ergonomia da Atividade Situada e a Ergologia pode ajudar o profissional de Recursos Humanos (Gestão de Pessoas). Com as novas exigências do mercado capitalista o modelo de trabalhador taylorista- fordista, que realizavam tarefas monótonas e repetitivas já não atendem esse mercado tão inovador. A contemporaneidade procura trabalhadores críticos, questionadores, dinâmicos, inovadores, criativos e inteligentes. Para que as exigências sejam atendidas demanda uma nova subjetividade (Subjetividade é entendida como o espaço de encontro do indivíduo com o mundo social) esta sendo criada para atender as necessidades do sistema capitalista.

Contribuições da Ergonomia da Atividade Situada e da Ergologia à compreensão do trabalho no contemporâneo: um olhar a lupa

                A Ergonomia da Atividade Situada mostra a diferença entre trabalho prescrito, (trabalho planejado antes de sua realização) e trabalho real (o trabalho efetivamente realizado), ou seja, o trabalho efetuado jamais corresponde ao trabalho esperado, porque ao realizar a tarefa, as pessoas estão expostas a uma serie de fatores que influenciam sua produtividade, tais como: fadiga, panes, diferenças de ritmos, efeitos da idade, experiência etc.
 A Ergologia³ parte do ponto estabelecido pela Ergonomia entre trabalho prescrito e trabalho real. Utilizando-se de uma “lupa” e tenta entender o trabalho a partir da atividade concreta de quem o executa. Trabalho para a Ergologia significa a atividade de seres humanos situados no tempo e no espaço e que se dá no acontecendo da vida. São atividades sempre complexas e que possuem um caráter enigmático.
            Atividade de trabalho é a maneira pela qual os humanos se envolvem no cumprimento dos objetivos do trabalho, em um lugar e tempo determinados, utilizando-se dos meios colocados à sua disposição.
                Na visão da Ergologia, é impossível que não exista atividade. Em uma situação de trabalho, não há como se fixar ao prescrito, o trabalho efetivamente realizado nunca é só prescrição, pois envolve sempre atividade humana. Diferente das estruturas organizacionais tayloristas, que acreditavam que apenas seguir as normas, os procedimentos escritos e as prescrições eram o suficiente para se realizar o trabalho. O trabalho real exige sempre uma mobilização maior e afetiva do trabalhador. O trabalho, na realidade, nunca é só mera execução.
                        A Ergologia exige que cada disciplina se repense e se retrabalhe a partir de quatro pressupostos:
ü  Noção de atividade: Essa atividade é sempre realizada e vivenciada de forma singular, personalizada e diferenciada e marca o distanciamento entre o que é prescrito e o que é efetivamente realizado.
ü  A consideração de que existe um campo de debate de valores em todas as atividades realizadas por humanos: A maneira como cada pessoa age diante das lacunas ou das deficiências do prescrito é sempre singular, não pode ser padronizada. Cada um vai renormalizar o meio a seu jeito para dar conta do que não está prescrito. E isso vai sempre envolver um debate: de normas, de valores e de histórias.
ü  A existência de uma dialética: aponta para a necessidade de interligar as questões micros e macros, entre o contexto em que ocorre a atividade de trabalho e a atividade singular. É se recusar a pensar apenas o contexto global (dimensão macro) acreditando que apenas ele promove impactos sobre as pessoas, que deveriam encontrar formas de se adaptar.
É recusar-se também, por outro lado, a fechar-se na dimensão micro do trabalho, esquecendo-se de ampliá-lo para efetuar análises mais precisas. É realizar o esforço de efetuar cruzamentos de uma determinada situação de trabalho com questões maiores que possam ser generalizadas. É “partir de” um certo lugar para adquirir sua ampliação.

ü   A consideração da existência de um regime de produção de saberes como dispositivo em três polos: aponta na direção de um regime de produção de saberes como dispositivo em três polos: o polo dos conceitos, o da experiência e um terceiro, ético e epistêmico, que faça a ligação entre os dois. O dispositivo em três polos é uma consequência direta da ideia de normalização da atividade. Para Schwartz, trabalhar envolve sempre uma dramática do uso de si. Trabalhar é sempre um drama no sentido de que envolve o trabalhador por inteiro, é o espaço de tensões problemáticas, de negociações de normas e de valores.



Recursos Humanos – que transformações?



                As práticas dos profissionais de Recursos Humanos se dão sempre no sentido de
“adaptar” o trabalhador às necessidades do trabalho e “corrigir” as falhas advindas do “fator humano”.
                A partir da década de 70, surge uma nova crise capitalista internacional e novamente os mundos de trabalho são alvos de transformações tecnológicas e organizacionais.
                A agilidade da inovação e a criatividade passam a ser decisivas para a sobrevivência
das empresas. Assim, após investir na anulação das capacidades cognitivas dos trabalhadores, dificultando terrivelmente o desenvolvimento de cada um, o capital chega a outro momento em que necessita de um trabalhador não apenas qualificado, mas competente, inteligente, questionador, crítico, inovador, que possa criar alternativas que mantenham a empresa competitiva.
                Surge à demanda de um “super-profissional”, altamente qualificado para atender às novas exigências do capital.
                Deste momento em diante surgem novas mudanças em relação às políticas e às práticas de Recursos Humanos. A principal foi no próprio nome do campo de trabalho, de Recursos Humanos para Gestão de Pessoas. Os funcionários não são vistos mais como recursos que podem ser manipulados e administrados, mais sim intervir nessas gestões das pessoas, compreender que mobilização subjetiva é essa, presente nas atividades de trabalho.
                Essa nova forma de pensar o trabalho traz mudanças também nas questões de seleção de pessoas. As seleções não podem mais ser realizadas a partir de perfis – rígidos e estáticos –, privilegiando trabalhadores que sejam bons seguidores de regras, mas surge a noção de potencial, que traduz uma visão de movimento, mais dinâmica. Essa noção de potencial vai permitir prever competências futuras (a partir, por exemplo, de avanços tecnológicos previsíveis), sendo possível antecipar programas de formação e de orientação de carreira.
                As avaliações de desempenho passam a levar em consideração questões como satisfação do cliente, clima no ambiente de trabalho e melhoria de processos internos, além dos indicadores financeiros.

Fonte: Cadernos de Psicologia Social do Trabalho, 2004, vol.7, PP. 41-49.

Giovanna O. Silva

Toyotismo é o modelo japonês de produção, criado pelo japonês Taiichi Ohno e implantado nas fábricas de automóveis Toyota, após o fim da Segunda Guerra Mundial. Nessa época, o novo modelo era ideal para o cenário japonês, ou seja, um mercado menor, bem diferente dos mercados americano e europeu, que utilizavam os modelos de produção Fordista e Taylorista. Toyotismo é um sistema de organização voltado para a produção de mercadorias. O Toyotismo espalhou-se a partir da década de 1960 por várias regiões do mundo e até hoje é aplicado em muitas empresas.
A ideia principal era produzir somente o necessário, reduzindo os estoques produzindo em pequenos lotes, com a máxima qualidade, trocando a padronização pela diversificação e produtividade. As relações de trabalho também foram modificadas, pois agora o trabalhador deveria ser mais qualificado, participativo e polivalente, ou seja, deveria estar apto a trabalhar em mais de uma função.

O Modelo Toyota

...É assim, pelo aperfeiçoamento constante ou, talvez eu devia dizer, pela melhoria baseada na ação que podemos alcançar um nível mais alto de praticas e de conhecimento”
Essa frase de Fujio Cho, presidente da Toyota, revela o pensamento pelo qual a empresa é administrada. Visão que é muito admirada, pois fez a Toyota se destacar no mercado automotivo, não pelo design ou desempenho dos carros, mais sim pela forma que concebia e fabricava seus veículos.
Com a excelência operacional sendo uma estratégia, foi adquirindo uma reputação de qualidade e uma consistência no desempenho, baseando-se em métodos de melhoria de qualidade e ferramentas como Just-in-time, fluxo unitário de peças, autonomação (jidoka) e nivelamento de produção (heijunka).
A Toyota sempre deixou claro que técnicas e ferramentas não são o bastante para modificar o desempenho, mais que o sucesso operacional origina-se na filosofia empresarial baseada em compreensão e motivação das pessoas.
Utilizando também dos “4Ps” – Filosofia, Processo, Pessoal/Parceiros e Solução de Problemas, que juntamente com Gengi Genbutsu, Kaizen, Respeito e Trabalho de Equipe e Desafio, formam o DNA da empresa.

  
A Toyota criou seu próprio Sistema de Produção, conhecido como STP, que com uma boa aplicação em todas as áreas da empresa, resulta na “produção enxuta”.
O objetivo de a Toyota criar essas ferramentas era eliminar os desperdícios de tempo e de material em cada passo do processo de produção, visando à necessidade de processo rápidos e flexíveis que deem aos clientes  o que eles desejam, quando desejam com o máximo de qualidade e  custo interessante.
As ferramentas de apoio aplicadas ao conceito enxuto, como troca rápida de ferramentas, trabalho padronizado, sistemas de puxar e verificar erros são fundamentais para a criação do fluxo.
Mas a chave do STP está no compromisso administrativo da empresa, com o investimento no pessoal e produção, além da promoção de uma cultura de melhoria contínua.
A Toyota tomou a iniciativa de criar o TSSC (Toyota Supplier Support Center) que ensinaria empresas americanas sobre o STP, criando um projeto enxuto para cada uma, que consistia em transformar uma linha de produção de uma empresa com ferramentas e métodos do STP.
Com a consultoria da TSSC pode-se perceber que muitas das empresas que se diziam ser enxutas, não compreendiam o que faz funcionar todas as ferramentas em um sistema.
A Toyota integra todos de uma forma homogenia desde os executivos até os funcionários de fabricação, desafiando as pessoas a utilizarem sua iniciativa e criatividade para experimentar e aprender. Tornando–se assim uma organização de aprendizagem que esteve evoluindo durante a maior parte do século.
A Toyota deu um exemplo de que se precisa aperfeiçoar e inovar constantemente para permanecer à frente da concorrência e evitar tornar-se monótono.
ü  Eliminando o desperdício de tempo e de recursos;
ü  Construindo qualidade nos sistemas do local de trabalho;
ü  Descobrindo alternativas confiáveis de baixo custo para a tecnologia nova e dispendiosa;
ü  Aperfeiçoando o processo administrativo;
ü  Construindo uma cultura de aprendizagem para a melhoria contínua.
Utilizando esses princípios para melhorar a qualidade, eficiência e velocidade. O Modelo Toyota é uma lição, uma visão e uma inspiração para qualquer organização que queira ser bem sucedida em longo prazo.
Principais características do Toyotismo:
- Mão-de-obra multifuncional e bem qualificada. Os trabalhadores são educados, treinados e qualificados para conhecer todos os processos de produção, podendo atuar em várias áreas do sistema produtivo da empresa.
-Team work (trabalho em equipe) – os trabalhadores passaram a trabalhar em grupos, orientados por uma líder. O objetivo é de ganhar tempo, ou eliminar os “tempos mortos”.
- Sistema flexível de mecanização- A produção deve ser ajustada a demanda do mercado. Produzir apenas o necessário, reduzindo os estoques ao mínimo.
- Uso de controle visual em todas as etapas de produção como forma de acompanhar e controlar o processo produtivo.
- Implantação do sistema de qualidade total em todas as etapas de produção. Além da alta qualidade dos produtos, busca-se evitar ao máximo o desperdício de matérias-primas e tempo. Todos os trabalhadores, em todas as etapas da produção são responsáveis pela qualidade do produto e a mercadoria só é liberada para o mercado após uma inspeção minuciosa de qualidade.
- Aplicação do sistema Just in Time (na hora certa): ou seja, produzir somente o necessário, no tempo necessário e na quantidade necessária.
- Kanban (etiqueta ou cartão) – método para programar a produção, de modo que o Just in time se efetive.
- Uso de pesquisas de mercado para adaptar os produtos às exigências dos clientes.
- Automatização – utilizando máquinas que desligavam automaticamente caso ocorresse qualquer problema, um funcionário poderia manusear várias máquinas ao mesmo tempo, diminuindo os gastos com pessoal.

Fontes:
LIKER, Jeffrey K. /O Modelo Toyota: 14 Princípios de Gestão do maior fabricante do mundo / Porto Alegre: Bookman, 2005. Pág.25 Capitulo 1.
Giovanna O. Silva
Abordagem Sistêmica da Administração
O biólogo alemão Ludwig Von Bertalanffy elaborou por volta da década de 50 uma teoria capaz de ir além dos problemas exclusivos de cada ciência e proporcionar princípios gerais e modelos gerais para todas as ciências envolvidas, de modo que as descobertas realizadas em cada ciência pudessem ser utilizadas pelas demais. Essa teoria - denominada Teoria Geral dos Sistemas - demonstra as várias ciências, permitindo maior aproximação entre as suas fronteiras e o preenchimento dos espaços vazios entre elas.
Assim, os diversos ramos do conhecimento - até então estranhos uns aos outros pela intensa especialização e isolamento consequente - passaram a tratar seus objetivos de estudos como sistemas.

TEORIA DE SISTEMAS
A Teoria Geral de Sistemas (T.G.S.) surgiu com os trabalhos do biólogo alemão Ludwig Von Bertalanffy. A Teoria Geral de Sistemas não busca solucionar problemas ou tentar soluções práticas, mas sim produzir teorias e formulações conceituais que possam criar condições de aplicações na realidade.
Bertalanffy criticava a visão que se tem do mundo dividida em diferentes áreas, como física, química, biologia, psicologia, sociologia, etc. E com fronteiras solidamente definidas. E espaços vazios entre elas. A natureza não está dividida em nenhuma dessas partes.
A Teoria Geral dos Sistemas afirma que as propriedades dos sistemas não podem ser descritas significativamente em termos de seus elementos separados. A compreensão dos sistemas somente ocorre quando estudamos os sistemas globalmente, envolvendo todas as interdependências de suas partes.

Conceito de Sistemas
Um sistema é um conjunto de elementos interdependentes e interagentes; um grupo de unidades combinadas que formam um todo organizado e cujo resultado é maior do que o resultado que as unidades poderiam ter se funcionassem independentemente.

Características dos Sistemas
Dois conceitos retratam duas características básicas de um sistema:
• Propósito ou objetivo: todo sistema tem um ou alguns propósitos ou objetivos.
• Globalismo ou Totalidade: todo sistema tem uma natureza orgânica, pela qual uma ação que produza mudança em uma das unidades do sistema, com muita probabilidade deverá produzir mudanças em todas as outras unidades deste.

Tipos de Sistemas
Quanto à sua constituição, os sistemas podem ser físicos ou abstratos:
·         Sistemas físicos ou concretos: são compostos de equipamentos, de maquinaria e de objetos ou coisas reais (hardware).
·         Sistemas abstratos: quando compostos de conceitos, planos, hipóteses e ideias (software).
Quanto à sua natureza, os sistemas podem ser abertos ou fechados.
·         Sistemas fechados: são os sistemas que não apresentam intercâmbio com o meio ambiente que os circunda, pois são herméticos a qualquer influência ambiental.
·         Sistemas abertos: são os sistemas que apresentam relações de intercâmbio com o ambiente, através de entradas e saídas.

Sistemas novos (orgânicos)
Sistemas organizados (organizações)
  • Nascem, herdam seus traços estruturais.
  • São organizados, adquirem sua estrutura um estágio.
  • Morrem, seu tempo de vida é limitado.
  • Podem ser reorganizados, têm uma vida ilimitada e podem ser reconstruída.
  • Têm um ciclo de vida predeterminado.
  • Não têm ciclo de vida definido.
  • São concretos – O sistema é descrito em termos físicos e químicos.  
  • São abstratos – O sistema é descrito em termos psicológicos e sociológicos.
  • São completos – O parasitismo e simbiose são excepcionais.
  • São incompletos – dependem de cooperação com outras organizações. Suas partes são intercambiáveis.
  • A doença é definida como um distúrbio no processo central.
  • O problema é definido como um desvio nas normas sociais.




A Organização como um Sistema Aberto
A descrição de sistema aberto é exatamente aplicável a uma organização empresarial. Uma empresa é um sistema criado pelo homem e mantém uma dinâmica interação com seu meio ambiente.
Influi sobre o meio ambiente e recebe influências dele. É um sistema integrado por diversas partes relacionadas entre si, que trabalham em harmonia umas com as outras, com a finalidade de alcançar uma série de objetivos, tanto da organização como de seus participantes.
As organizações possuem as características dos sistemas abertos. É importante alinhar algumas características básicas das organizações enquanto sistemas:
·         Entrada (importação): a organização recebe insumos do ambiente e depende de suprimentos renovados de energia de outras instituições ou pessoas.
·         Transformação (processamento): os sistemas abertos transformam a energia recebida em produtos acabados, serviços, etc.
·         Saída ou produto (exportação): os sistemas abertos exportam seus produtos, serviços ou resultados para o meio ambiente.
·         Entropia negativa: é um processo reativo de obtenção de recursos de energia
·         Informação como insumo, retroação negativa e processo de codificação: os sistemas abertos recebem insumos, como materiais ou energia  que são transformados ou processados.
§ Homeostase ou Estado Firme: A organização precisa conciliar dois processos opostos, ambos imprescindíveis para a sua sobrevivência, a saber: o sistema aberto se caracteriza por um estado firme - um influxo contínuo de energia do ambiente exterior e uma exportação contínua dos produtos do sistema. O estado firme é observado no processo homeostático, que é a tendência do sistema em permanecer estático ou em equilíbrio.
§  Diferenciação: como um sistema aberto a organização tende à diferenciação, multiplicação e a elaboração de funções. É também uma tendência para a elaboração de estrutura.
§  Equifinalidade: os sistemas abertos são caracterizados pelo princípio  de equifinalidade-  um sistema pode alcançar, por uma variedade de caminhos, o mesmo resultado final.
§  Fronteiras ou Limite: É a linha que serve para demarcar o que está dentro e o que está fora do sistema, isto é são as barreiras entre o sistema e o ambiente.

Fonte: 
CHIAVENATO, Idalberto. introdução à teoria geral da administração, Rio de Janeiro, Elsevier, 2004. cap .15 p. 326- 332.